Entrevista a Garcia DOMINGUES


Garcia Domingues [1] é autor de várias obras sobre a filosofia alemã e o pensamento árabe, entre as quais se destacam os seguintes títulos: A Filosofia da Angústia em Martinho Heidegger [Lisboa: Revista da Faculdade de Letras 6, 1938, 39 p.], O Pensamento Alemão: Ensaio sobre o Sentido da Alma Germânica e o Espírito da Nova Europa, [Lisboa: s.n., 1942, 202 p.] (...)

L – A sua tese de doutoramento [2] causou um certo mal-estar nos meios universitários. O senhor é apontado como um dos responsáveis pela introdução em Portugal do pensamento germânico contemporâneo…

GD – É verdade. Quando apresentei a minha tese, o ensino universitário ignorava a filosofia alemã e as correntes mais modernas do pensamento. Exposições sobre o pensamento germânico não existiam. Mais do que isso: a metafísica tinha sido desprezada pelos programas inventados por Matos Romão. Nem Vieira de Almeida queria a disciplina de metafísica.

A minha tese provocou uma espécie de revolução…

L – Cremos que também foi um dos primeiros divulgadores do pensamento de Heidegger…

GD – Um dia, Delfim Santos chamou-me a atenção: «Você não está a interpretar bem o pensamento de Heidegger». De qualquer modo, considero que neste filósofo alemão a ideia de ontologia tem muita importância, mais até do que a ideia do Nada ou a sua posição ateísta. Na minha perspetiva, a filosofia heideggeriana é uma filosofia da existência e da realidade, ou melhor, é uma real ontologia. Mas a ontologia é ainda insuficiente… Heidegger corresponde a um esforço de investigação do pensamento que não conduz a qualquer conclusão. A noção de ser é difícil de conceber. Não sei o que seja. É preciso muita coragem para explicitar este conceito. Julgo que a filosofia tem de se preocupar com as relações entre o ser e o devir. É desta reflexão que resulta a metafísica moderna.

Leonardo, Revista de Filosofia Portuguesa 1, 1988.


[notas]

[1] - José Domingos Garcia Domingues nasceu 18 de Maio de 1910 em Silves, no Algarve. Foi um dos fundadores do Nacional Sindicalismo, mas foi como arabista e autor de importantes trabalhos sobre a cultura do Garb al-Andalus que se celebrizou. Faleceu em 1989. Uma escola secundária de Silves recebeu o seu nome.

[2] - 'Da essência da existência e da valência’: investigações sobre as raízes metafísicas do pensamento e as perspetivas transcendentais do ser', Tese de doutoramento em Ciências Filosóficas apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Lisboa: Revista da Faculdade de Letras 7, 1939, 149 p.



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