João Gaspar SIMÕES, 'O Homem e a Cultura'


Retrato de João Gaspar SimõesEm épocas perturbadas como a que presentemente atravessamos é frequente perguntarem-se os homens a si mesmos que é e para que serve a cultura. Ameaçada a paz, ao homem nada mais importa que a guerra. E a guerra é em si mesma a negação de toda a cultura, pois enquanto esta constitui um idearium de valores mercê do qual os homens se preparam para melhor realizar a sua condição humana, aquela é pura e simplesmente a negação de qualquer espécie de ideal que tenha esta por fim supremo. Bem certo que a vida é provisória, mas o que permite ao homem cumprir grande parte do seu programa de cultura é exatamente a ilusão da imortalidade com que nasceu.

Não carece o homem estreitamente apertado nas tenazes da necessidade de qualquer espécie de cultura que não tenha a satisfação dessa necessidade por fim imediato. O homem de hoje, com a guerra, por um lado, e a necessidade, por outro, pensa cinicamente que a cultura lhe não é precisa para nada. O realismo da sua posição fá-lo desprezar utopias. Virando as costas a toda a forma de cultura, apenas cuida daquilo a que chama soluções positivas.

Ah, mas é nisto mesmo que o homem de hoje se equivoca! O seu desdém pelas formas superiores da cultura é responsável, em grande parte, da situação dramática em que se encontra.

Sim, não há quem não vacile em momentos como este. Poderosas reservas de espiritualidade são precisas para se resistir ao empirismo deste raciocínio. E como todos nós nos inspiramos numa mesma realidade – a realidade dramática que nos cerca – todos nós comparticipamos da mesma dúvida e da mesma descrença. Ainda temos os ouvidos cheios de graves apelos à justiça e à razão. Não há muito ainda julgávamos assistir a uma luta final e decisiva entre o instinto primário e a razão esclarecida. E já hoje verificamos que a justiça não passa de conveniência e que a razão é uma arma de dois gumes: ora fere os que a ofenderam, ora os que por ela se bateram.

Coragem! É de coragem, afinal, que nós precisamos. Não de coragem para pegar em armas ou para transigir com a hedionda realidade. Mas de coragem para pensarmos que somos nós, homens, os únicos responsáveis do triste sudário da vida presente. Pensar não é tão pouca coisa que a própria vida humana passe alheia ao pensamento. Se pensarmos corajosamente em nós próprios, não na vida, que em si mesma não é senão a imagem daquilo que nós formos, encontraremos a razão das nossas infelicidades presentes e futuras.

É certo não ser o pensamento património exclusivo de uma classe de homens, mas a verdade é que, sendo embora apanágio de todos, só nalguns é suscetível de atingir aquela plenitude mercê da qual pensar se converte em alguma coisa mais que dirigir a vontade para a apreensão dos bens de que o homem precisa na sua luta pela manutenção da vida. Injusta desigualdade, mas desigualdade inevitável. Aceitemo-la e aproveitemos largamente da nossa capacidade, já não digo de pensar com originalidade, mas de sermos suscetíveis de escolher com dignidade o melhor pensamento alheio. Procedendo assim, damos o primeiro passo para nos resgatarmos do abismo em que nos encontramos. Uma das mais graves determinantes da crise do nosso tempo deve-se exatamente ao desleixo em que os homens dos últimos trinta anos deixaram a sua vida mental, aceitando como mentores e chefes quem lhes não vinha dar a liberdade de escolher o seu próprio caminho nem lhes proporcionava meios adequados ao rigoroso controle das soluções que lhes ofereciam.

É preciso realmente voltar atrás. É preciso resgatar o tempo perdido. É preciso reabilitar o pensamento. A cultura do nosso tempo está à nossa espera para nos salvar. E o paradoxo já não é paradoxo para ninguém. Todos preci samos de saber que a vida se determina por ideais e que são os próprios homens que se dão a si mesmos os ideais de que carecem. Círculo fechado, a vida é no fim aquilo que nós próprios quisemos que ela fosse no princípio...

Não há entre nós muitos homens fadados pelo génio e pela própria forma do seu espírito para servirem de mentores daqueles que não nasceram capazes de se darem a si próprios a chave dos seus ideais. O filósofo não prospera em Portugal. É de filósofos que estamos falando. Mas, se não há filósofos originais entre nós, alguns espíritos superiormente dotados para realizarem em si próprios, no seu próprio pensamento, o pensamento dos mestres têm surgido de tempos a tempos entre nós. Nem só aquele que elabora um sistema, ou seja, aquele que encontra uma solução para os problemas do homem e da vida é, necessariamente, filósofo. Poucos são, afinal, em lodos os departamentos da vida intelectual, os homens que criaram obras universalmente válidas. Os Dantes, os Camões, os Miltones, os Shakespeares ou os Cervantes são tão poucos que os enumeramos neste curto período. Que admira, portanto, que haja tão limitado número de filósofos criadores? Aristóteles ou Platão, Kant ou Hegel, Bergson ou Croce não são toda a filosofia. Ai de nós se o fossem! É com os seus discípulos e comentadores que as suas doutrinas ganham a forma graças à qual nos é permitido muitas vezes, a nós, não iniciados, contactar com eles.

Tal como Sant'Anna Dionísio, José Marinho ou Casais Monteiro, também Delfim Santos se abriu para o pensamento filosófico na Faculdade de Letras do Porto, quando aí era professor Leonardo Coimbra. Graças, porém, ao seu contacto com a moderna filosofia alemã no período imediatamente anterior à catástrofe, o seu espírito ganhou uma têmpera diversa. De uma rica matéria plástica, o português que procura no estrangeiro o alargamento dos seus métodos intelectuais e o enriquecimento da sua bagagem cultural facilmente se deixa assimilar pelo meio que frequenta. Daqui o nome de "estrangeirados" com que se brindou os homens do século XVIII e o caráter realmente pouco português da mentalidade da maior parte dos nossos intelectuais que viveram largos anos em contacto com fortes e prestigiosas culturas estrangeiras. Aliás, não se trata de um defeito a corrigir por processos patrioteiros, ou seja, negando aos melhores espíritos nossos os meios de se "estrangeirarem". O remédio está em criarmos uma forte mentalidade própria e isso não se consegue senão com o caldeamento da nossa com a cultura estrangeira. Quer dizer: do que precisamos é de fortalecer a nossa cultura ao contacto das culturas alheias, procurando modelar estas ao sabor do que em nós é verdadeiramente nosso.

Delfim Santos, que já levava consigo o fermento de uma cultura não racionalista ganha no fecundo convívio de Leonardo Coimbra, encontrou-se com a filosofia dos valores de Max Scheler e com o pensamento fenomenológico alemão, métodos filosóficos que reforçaram o natural pendor do seu próprio espírito. Daqui que ele se tenha sentido perfeitamente à vontade com os seus novos mestres. E se a sua mentalidade não ganhou a rigidez e a intransigência de quem conhece a verdade, foi porque o espírito de Delfim Santos é antes o espírito de um pedagogo que o espírito de um verdadeiro filósofo, o que de resto está inteiramente de acordo com as suas funções professorais.

Neste seu ensaio intitulado Meditação sobre a cultura patenteiam-se de forma admirável as faculdades expositivas de Delfim Santos. O autor do Conhecimento e Realidade, colocado perante o problema mais grave do nosso tempo – o da crise dos valores culturais, – formulou de forma lucidíssima o diagnóstico do que realmente constitui o mal da nossa civilização. E se as suas conclusões parecem contrariar algumas das suas atitudes, isso apenas demonstra a estranha situação dos valores intelectuais do nosso tempo.

De facto, no próprio ensaio de Delfim Santos estão patentes os termos da perplexidade que atingiu os próprios pensadores em que ele se inspirou. Concluindo que «o que mais importa defender não são os produtos ou formas civilizacionais típicas de certas épocas, mas sim o homem mesmo, porque este traz em si possibilidades de criação de novas formas, possivelmente em melhor acordo com a sua própria época de vida», Delfim Santos afirma a sua crença no homem acima de tudo o mais, ou seja, a sua confiança no humanismo como expoente de cultura, embora este humanismo, já implícito na filosofia dos pensadores fenomenologistas, tenha sido traído pela nação alemã. Na verdade, enquanto a filosofia proclamava a necessidade de antropomorfizar a cultura, dando ao homem o principal lugar no pensamento, verificava-se precisamente o contrário na organização política e na conceção civilizacional do mundo de entre duas guerras. O predomínio das ciências físicas que, como diz Delfim Santos, levou a uma conceção atomista do homem, reforçado com o desenvolvimento das ciências biológicas, que reduziu este à categoria de animal sujeito a uma evolução de caráter puramente material, prepara-lhe essa incómoda postura de "animal político", como lhe chamou um escritor inglês, mercê da qual os últimos anos que precederam a segunda grande guerra o viram reduzido a simples fator orgânico da sociedade. Também nós estamos convencidos de que não há «apenas uma diferença de grau entre o animal e o homem, mas um abismo os separa», como escreve o autor da Meditação sobre a cultura. Por isso mesmo nos recusamos a aceitar todo o sistema cultural ou político em que o homem é assimilado ao animal. Desde que só o espírito é capaz de dizer "não" à natureza e à vida, e a liberdade é, portanto, condição da sua própria existência, todo o problema da cultura está, realmente, em desenvolver no homem a sua capacidade de se afirmar na plena posse desse dom peculiarmente seu. E, assim, se a «cultura é um processo de valorização do humano», como escreve Delfim Santos, «isto é, mais de formação de caráter do que de transmissão de saber», parece-nos absolutamente indispensável na base de toda a verdadeira cultura a preservação da liberdade graças à qual é dada ao homem a confiança na sua própria capacidade de plenamente poder continuar a ser homem.

Eis um dos paradoxos do nosso tempo: tão corrompido está hoje o homem como homem que é capaz de se servir do seu próprio pensamento para dissimular os seus fins. Desde que se perdeu o sentido da responsabilidade, ou, como diz Delfim Santos, «logo que o homem transfere a crença em valores de que ele depende para outros que dependem. dele, e são sua criação, dá-se um empobrecimento inevitável do seu conteúdo de vida», ou, o que é o mesmo, dá-se um inevitável empobrecimento no seu respeito pela sua própria condição humana. Isto dá lugar à tremenda confusão em que hoje se debate a própria cultura, pois todos, até mesmo aqueles para quem o homem não passa, afinal, de um simples instrumento da vida social que é preciso amoldar às decisões dos que talharam planificadamente o seu destino, até esses mesmos falsificam a verdade, falando a cada passo no homem como se, de facto , fosse o homem o escopo final das suas conceções. O logro da cultura do nosso tempo, não a crise da nossa cultura, eis o que é preciso ter bem em vista.

De facto, os ideais ou normas de vida de natureza puramente racional não podem servir ao homem para ditar o caminho da sua cultura. Por outro lado, todavia, os tempos modernos, como escreve Delfim Santos, «desvalorizaram tudo o que no homem não é racional, e como a possibilidade de crer, isto é, de emprestar sentido de ideal a certas ideias, era qualquer coisa de irracional, seguiu-se a sua condenação, depois da sua indevida identificação com a fé, em sentido religioso». Daqui a apropriada interpretação que o autor do Conhecimento e realidade faz da chamada filosofia dos valores. Para suprir a inadequação das ideias à resolução do problema da conduta do homem segundo valores ideais e habilitá-lo ao mesmo tempo com um instrumento valorativo capaz de o determinar por meios não racionais nem irracionais, tentaram pensadores vários classificar os homens consoante a ressonância que os valores encontram neles, aceitando que a intuição dos "valores" não pertence à esfera racional, mas sim à esfera emocional, uma vez que se procura estabelecer uma coordenação harmónica no homem entre três esferas distintas: a do sensível, a do emocional e a do inteligível, independentes umas das outras e sem predomínio exclusivo de qualquer delas. Deste modo apareceram as classificações de Krestchmer, de Jung e de Spranger. E, assim, o problema da cultura, no ponto de vista dos valores, está todo em procurar descobrir no homem qual a sua maneira própria de os assimilar. Como escreve Delfim Santos: «A missão preliminar da educação deve, pois, consistir na descoberta do tipo a que o homem pertence, e depois em revelar os valores próprios a cada um destes tipos, porque só eles podem conformar ativamente a personalidade».

Partindo do princípio de que todos os homens são suscetíveis de se determinar por uma certa ordem de valores, o problema da cultura e, em última instância, o problema da vida estão na atenção que se preste ao próprio homem na organização dos meios favoráveis à sua própria condição humana. Quer dizer, em última análise, que o valor que a cultura precisa de preservar é o próprio homem, centro de toda a atividade pensante e de toda a orgânica política e social. Uma antropomorfização da vida intelectual, ética, política e social - eis a finalidade de toda a cultura. A convicção de que é este o caminho para solucionar a crise do nosso tempo seria partilhada por todos os homens de bom pensar se não fosse a conclusão de HegeI citada pelo próprio Delfim Santos e é que: «a história só nos ensina que o género humano nada aprende da história». Isto significa ser mais fácil ao homem vincular-se a fórmulas e identificar-se com sistemas que se lhe afiguram garantir a continuidade dos seus bens adquiridos, por mais mesquinhos que eles sejam, do que procurar resolver o seu problema fundamental, qual seja encontrar novas formas de cultura quando aquelas em que vive já não servem para satisfazer aquilo que é ou deve ser a sua finalidade última: tornar-se verdadeiramente homem.

João Gaspar SIMÕES, Liberdade do Espírito, Ensaios. Porto: Portugália 1948, 241-250.

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